Matéria da edição Nº200 - Outubro de 2007
Texto: Ronie Dotzlaw
Junta de Cabeçote:

A junta de cabeçote é uma das principais peças de um motor, mas nem por isso deixa de ser, também, muito problemática. E mesmo hoje em dia muitos reparadores têm dúvidas na hora de sua aplicação. Por isso nesta matéria iremos mostrar alguns procedimentos para garantir uma boa troca da junta de cabeçote e certas práticas que podem levar a erros na hora de sua instalação.

Dependendo do tipo de manutenção no motor de combustão interna há a necessidade de desmontá-lo. E se o cabeçote e o bloco fossem um peça única, essa tarefa se tornaria impraticável, ou no mínimo inviável economicamente, sem contarmos o fato que seria praticamente impossível visualizarmos problemas na câmara de combustão. Porém, para facilitar todas essa tarefa o bloco e o cabeçote foram divididos.

Surgindo um novo problema: o de como vedar a união entre cabeçote e bloco do motor, várias soluções foram tentadas, desde a aplicação de encaixes entre ambas as peças que seriam unidas com o torque dos parafusos, até o uso de metais mais macios entre as peças e até a utilização de juntas de cortiça. O material mais usado na fabricação de juntas de cabeçote foi o cancerígeno asbesto, também chamado de amianto, que junto com outros materiais como chapas metálicas e borracha, deram à junta de cabeçote a aparência que conhecemos hoje em dia.

Atualmente estamos presenciando uma mudança na fabricação das juntas de cabeçote que deixaram de ter aquele aspecto de papel para serem fabricadas em metal, são as chamadas juntas metálicas ou multilayer (multicamadas), isso é uma exigência dos novos motores e tecnologias de materiais e fabricação. Porém, a junta de cabeçote continua cumprindo sua função de vedante.

Componentes e funções

A principal função de uma junta de cabeçote é vedar a união entre o cabeçote e o bloco do motor, porém, para que o motor possa funcionar corretamente a junta deve permitir que o óleo lubrificante e/ou o líquido de arrefecimento também possam circular livremente entre os canais do cabeçote e do bloco. Para que todo esse sistema funcione corretamente, a junta precisa assegurar que nada irá entrar ou sair destes circuitos.

Outra função da junta de cabeçote é se auto adaptar às dilatações sofridas pelo cabeçote e pelo bloco que, por serem construídos em materiais diferentes, sua dilatação não segue o mesmo padrão, sendo assim, a junta deve ser elástica o bastante para absorver as diferenças entre essas duas superfícies.

Porém, a função mais importante da junta de cabeçote é realmente desconhecida: toda junta de cabeçote funciona como um fusível, que deve se danificar antes de ocorrer qualquer problema mais grave no motor. A dificuldade em entender os sinais que a junta nos passa antes de se danificar é a grande causa das reclamações e da incompreensão com essa peça.

No caso das juntas metálicas existem muitas variações, desde juntas maciças, usadas principalmente em competições, geralmente fabricadas em alumínio ou cobre. Até as juntas com várias camadas, para uso em veículos originais, no mercado é comum encontrarmos juntas com três camadas, sendo as externas em aço e a intermediaria em metal mais macio, por exemplo, alumínio.

As juntas metálicas comuns contam com a ajuda de vedações auxiliares, que podem ser insertos na junta ou uma camada aplicada sobre toda a superfície dela, deixando a junta com um aspecto emborrachado.

Problemas

As juntas de cabeçote são freqüentemente culpadas por grande parte dos problemas apresentados pelos motores, porém, veremos alguns fatores que a danificam e consequentemente comprometem o funcionamento do motor.

Torque:

Erro na aplicação do torque é um item que gera a maior polêmica entre os reparadores. O torque excessivo faz com que a junta seja esmagada em demasia, fechando passagens e perdendo seu poder de contração e dilatação. É mais difícil de ser detectado, mas indícios como material da junta colado nas faces do bloco ou cabeçote, corte da junta na região do anel de fogo, podem indicar um torque excessivo nos parafusos de cabeçote.

 

A falta de torque é facilmente percebida, pois quando retiramos a junta e sua espessura permanece quase igual à nova. A junta não apresenta marcas de aperto e normalmente os vazamentos ocorrem após pouco tempo de uso, às vezes em poucas horas. A falta do retorque, recomendado por alguns fabricantes, gera os mesmos problemas, porém estes demoram um pouco mais para ocorrerem.

Planicidade e rugosidade:

Este é um problema comum e que o reparador, em muitos casos, só detecta após analisar todas as outras causas. Se as superfícies do bloco e do cabeçote não estiverem paralelas e perfeitamente planas, podem surgir pontos em que a junta não será corretamente prensada, ocorrendo vazamentos.

A rugosidade é a grandeza que expressa o quanto uma superfície está áspera ou lisa, segundo parâmetros microscópicos. Superfícies de cabeçote ou bloco, fora da rugosidade necessária para a aplicação da junta, podem fazê-la não aderir corretamente às faces das peças.

Superaquecimento:

O superaquecimento resseca o material de vedação da junta de cabeçote, que está exposta a um calor intenso, isso faz com que ela fique dura e quebradiça, assemelhando-se ao vidro, que é muito duro, porém frágil demais. A junta de cabeçote nestas condições perde sua elasticidade e em decorrência disto ocasiona vazamentos.

Combustão:

A maioria dos reparadores tem a idéia equivocada, de que uma junta de cabeçote foi fabricada para suportar tudo o que possa ocorrer dentro da câmara de combustão. Porém as juntas de cabeçote foram desenvolvidas para atuarem em motores, que trabalhem sob parâmetros especificados pelos fabricantes.

Aplicação:

Qualquer tipo de sujeira na superfície da junta pode ocasionar vazamentos, por não permitir que ela tenha contato completo com as superfícies do cabeçote e bloco do motor.

O uso de selantes pode danificar a superfície da junta, comprometendo sua vedação.

Descuidos no manuseio e na estocagem de uma junta de cabeçote podem facilmente danificá-las.

Juntas de cabeçote reutilizadas irão, invariavelmente, apresentar problemas e o serviço terá de ser refeito.

Cuidados a serem tomados

1. Todas as vezes que o cabeçote de qualquer motor for retirado, troque os parafusos, pois estes são elásticos e se deformam ao serem torqueados, gerando medições erradas ao aplicá-los novamente. Quando o custo dessa substituição for muito alto, adquira um parafuso original, novo, e meça todos os parafusos do motor com base neste, aqueles que estiverem mais compridos deveram ser trocados. Está dica se aplica aos prisioneiros, que existem em alguns motores;

2. O torque correto aplicado a uma junta de cabeçote deve seguir a especificação do fabricante da junta, quando adquirida no mercado de reposição e seguir o troque recomendado pelo fabricante do veículo, quando a junta for adquirida em uma concessionária. Nunca devemos alterar o torque recomendado pelo fabricante, quer seja original ou paralelo. Sempre faça o reaperto dos parafusos de cabeçote, quando solicitado pelos fabricantes;

3. Após a montagem de uma junta de cabeçote é conveniente revisar o sistema de arrefecimento do veículo, garantindo o serviço e a satisfação do cliente;

4. Se não houver uma recomendação explícita do fabricante da junta, nunca deve ser usado nenhum tipo de selante (cola) em sua instalação;

5. A junta e as superfícies de contato devem estar absolutamente limpas antes de serem torqueadas;

6. A maioria das juntas de cabeçote está em contato direto com a câmara de combustão, por isso, motores fora do ponto ou com calibragem errada do débito de combustível podem danificá-las, antes de danificarem outras partes do motor;

7. A planicidade das superfícies do bloco e do cabeçote deve ser checada sempre que este for retirado e sempre que houver necessidade leve-os a uma retifica para seu aplainamento. Não se esqueça de conferir a planicidade, assim que as peças voltarem da retífica, isso garante o serviço realizado;

8. A rugosidade é uma grandeza, que exige ferramental adequado para sua medição, chamado rugosímetro, por ser um equipamento muito caro, poucas retíficas o possuem, por isso devemos procurar efetuar os trabalhos em empresas idôneas e de confiança, evitando aborrecimentos.

9. Nunca aplique selantes ou outro tipo de produto nas juntas, a menos que o fabricante recomende, neste caso aplique uma fina camada do produto, evitando obstruir alguma passagem;

10. Todas as juntas devem ser manuseadas com cuidado, pois são peças delicadas e extremamente trabalhosas para serem substituídas;

11. Nunca instale uma junta feita para motores à gasolina em motores movidos a álcool, ou vice-versa, a menos que o fabricante permita;

12. Em caso de dúvida na aplicação de uma junta, consulte o fabricante da mesma, não instale peças sem ter plena certeza de sua aplicação;

13. Finalmente, nunca reaplique uma junta usada, pois esta já perdeu sua capacidade de vedação.

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