Matéria da edição Nº195 - Maio de 2007
Texto: Pedro Franco
Fiat Mille Fire: resistente, Mille prova que sua mecânica simples ainda é eficaz
Compacto da Fiat apresenta poucos reparos durante a avaliação; destaque positivo apontado pelos reparadores é a simplicidade dos diagnósticos e consertos

O Fiat Mille é um dos casos únicos de sucesso no mercado automotivo brasileiro. Assim como o Volkswagen Gol, seu projeto data de mais de 20 anos e ainda conquista grande espaço no ranking de vendas. Fabricado em Betim (MG) desde 1984, o modelo é um verdadeiro "pé-de-boi", tanto na opinião de motoristas como de reparadores – graças a seu baixo custo de manutenção, também é muito usado em frotas.

No início de 2005, ele ganhou o motor bicombustível, que elevou sua potência de 55 cv para 65 cv com gasolina e 66 cv com álcool. Essa é a maior mudança que o reparador vai encontrar em relação aos modelos que costumam freqüentar sua oficina. As outras alterações ficam por conta da taxa de compressão, que subiu para 11,6:1 (a do Mille Fire a gasolina é de 9,5:1), das sedes e guias de válvulas (como o álcool tem menor poder lubrificante que a gasolina, foi preciso alterar o material de fabricação destes componentes para garantir sua durabilidade), dos bicos injetores, com maior vazão, e do sistema de partida a frio, que possui um reservatório de gasolina e coletor de admissão com um orifício calibrado para a injeção da gasolina após a borboleta.
Nesta avaliação, fizemos um raio-x completo de uma versão 2004 com 59 mil quilômetros rodados. O resultado foi positivo, e as opiniões dos reparadores sobre o Mille continuam elogiando o modelo.

Motor
Quando deixou seu Mille para a revisão, o dono do Fiat, Márcio Camargo, logo chamou a atenção da equipe da Engin Engenharia Automotiva para um problema intermitente em seu carro: toda vez que descia serras, a luz que acusa irregularidades na injeção eletrônica começava a acender na parte final do percurso de curvas. Nas retas, o aviso sumia. O consumo elevado para o modelo, conhecido por sua economia de combustível, também era outro fator preocupante.
Carro no scanner, o aparelho detectou que o sensor MAP (pressão do ar) estava trabalhando fora dos parâmetros. Como os problemas ocorridos em momentos anteriores à conexão do veículo ao scanner ficam gravados na central de comando, o dispositivo acusou a anomalia. "Retiramos o MAP e vimos que ele estava impregnado de resíduos. Realizamos uma pequena limpeza e ele voltou ao normal. Com a mudança de altitude em uma descida de serra, o sensor sofre a mudança de pressão atmosférica e, mesmo que a sujeira seja pouca e o erro de leitura pequeno, ele vai afetar a medição e acusar problemas", explica o engenheiro Paulo Aguiar. "O ideal é que o reparador efetue a troca da peça em caso de falha. Neste caso, porém, a sujeira era pouca e foi possível reaproveitar o sensor", completa Aguiar.

A questão do alto consumo também tinha, em parte, a ver com o MAP sujo. "Ele é responsável pela medição da massa de ar que entra nas câmaras. Se falhar, certamente não vai oferecer a combustão mais eficiente", esclarece o consultor Eduardo de Freitas.
O sistema de alimentação do Fiat também passou por rigorosa inspeção: no analisador de gases, o Mille acusou índice de CO (monóxido de carbono) variando entre 1,6% e 1,8%, número alto diante do máximo de 0,5% recomendado pela montadora.
Para que a emissão de poluentes e o consumo voltassem aos parâmetros normais, a Engin trocou o jogo de velas (as peças estavam com os eletrodos gastos), removeu e limpou os bicos injetores. "Dois dos quatro bicos estavam com a vazão ruim, comprometendo o funcionamento de todo o sistema", explica Paulo Aguiar. O filtro de combustível, saturado, também foi trocado, e o corpo de borboleta passou por uma limpeza.

Após todos os reparos, a satisfação de um trabalho bem feito aparece no visor do analisador de gases: índice de CO a ínfimos 0,08%, bem abaixo do especificado e, sem dúvida, excelente do ponto de vista da diminuição do consumo e da poluição do ambiente.
Como a Fiat recomenda a troca da correia dentada a cada 60 mil quilômetros, a peça e o tensionar foram substituídos, assim como a correia poli-V. "Os antigos Uno apresentavam muitas quebras de correia dentada, mas essa deficiência foi sanada no Mille Flex", explica Paulo Aguiar.
A quilometragem do compacto também não perdoou a embreagem, que não resistiu aos mais de 50 mil quilômetros rodados. "A vida útil da embreagem do Mille é pequena", alerta o consultor Danilo Tinelli. O conjunto com platô e disco foi substituído.

Suspensão e freios
A suspensão do Mille estava em condição regular. Os quatro amortecedores não tinham vazamentos, mas, como estavam "cansados" e comprometiam a dirigibilidade do hatch, foram trocados.
Já as buchas da barra estabilizadora e do braço oscilante não tiveram tanta sorte e deram lugar a peças novas. Em seguida, como de praxe no caso de troca dessas peças, foi realizado o alinhamento.
Os discos e pastilhas foram trocados, pois estava desgastados em função do tempo de uso – eram originais do carro desde zero quilômetro. Como o Mille é um veículo leve, essas peças na sofrem muito, e o dono não terá manutenção tão cedo.

No conjunto traseiro, a Engin regulou o sistema, que teve os cilindros de roda trocados com aproximadamente 50 mil quilômetros.

Clique aqui para visualizar a Ficha Técnica.

Dicas 1: Atenção com a pressão de trabalho da bomba de combustível: de acordo com o manual técnico, ela deve estar entre 2,8 bar e 3,0 bar para o perfeito funcionamento do motor 1.0 Fire Flex.

Dica 2: O filtro de combustível do Mille Fire Flex é o mesmo utilizado por seu antecessor, o Uno Mille I.E. Ambos podem ser usados nos dois modelos.

Dica 3: O consultor Washington Mariano alerta para um importante detalhe na hora de realizar a limpeza do sensor MAP. "Quem for limpar nunca deve usar gasolina. O correto é um desoxidante de boa marca", recomenda.

Dica 4: Na hora da substituição da correia dentada, é preciso checar se ela traz a marca "H", que indica o selo de certificação para altas temperaturas HNBR.

Dica 5: Não são raros os casos de entupimento do respiro anti-chama do cárter do Mille, que pode causar muita pressão no reservatório, mandando a tampa de óleo ou a vareta pelos ares. É recomendável sempre checar o anti-chama dentro da mangueira do respiro para que isso não aconteça. Caso ele esteja obstruído, o ideal é substituí-lo.

Dica 6: O excesso de pó na hora da troca da embreagem indica que ela sofreu desgaste normal. Se a quantidade de pó for pequena, provavelmente foi usada da forma incorreta, com alta rotação em marchas baixas e com descanso do pé sobre o pedal.

Dica 7: O reparador deve ficar atento quanto ao estado da coifa do êmbolo da pinça de freio dianteiro. Se ela estiver rasgada, a penetração do pó será inevitável e o cilindro pode travar.

paredaoA próxima avaliação será com o Chevrolet Corsa, Clique aqui, escreva suas críticas, sugestões e sua experiência com a manutenção deste modelo. Participe! Sua opinião poderá sair publicada no jornal.

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