Matéria da edição Nº180 - Fevereiro de 2006
Texto: Rodrigo Samy
Foto: Daniel Abreu
Clínica para supermáquinas
Oficina da Ferrari e Maserati no Brasil trabalha com o mesmo padrão das outras autorizadas do mundo

A história da Ferrari começou em Modena, Itália, em 18 de fevereiro de 1898, quando nascia Enzo Ferrari ao lado da oficina mecânica do pai. A paixão pelo esporte automotivo sempre esteve na vida de Enzo, tanto que ele se especializou na preparação de motores. Durante a 2a Guerra Mundial, o plano de descentralização industrial adotado pela Itália, em 1943, obrigou Enzo Ferrari a deixar a cidade natal para se instalar em Maranello, numa pequena vila.

O Cavalinho, um dos ícones automotivos mais conhecidos do mundo, estava pintado na fuselagem do caça de Francesco Baracca, heróico aviador caído em Montello, na Primeira Guerra Mundial. Quando venci, em 1923, no primeiro circuito de Savio, em Ravenna, conheci a mãe do herói. Então ela me disse: Ferrari, coloque no seu carro o Cavalinho ‘Rampante’ do meu filho. Ele lhe dará sorte. O símbolo era negro e assim permaneceu, juntei o fundo amarelo-canário em homenagem à Modena, conta Enzo Ferrari em biografia.

Nascia a Masserati

Do outro lado da Itália era criada uma outra empresa que no futuro se juntaria com a Ferrari. A Maserati, fundada em 1914, em Bologna, pelos irmãos Maserati - Ettore e Ernesto - tinha como objetivo desenvolver carros, motores e velas de ignição. O logotipo do tridente que identifica os carros da Maserati foi inspirado na estátua de Netuno de Giambologna, localizada em uma das praças mais importantes de Bologna. Em 1997, a Ferrari comprou 50% da Maserati e assumiu seu controle operacional. Teve início uma renovação da fábrica, sob o comando de Luca di Montezemolo. Os primeiros resultados foram os modelos Quattroporte Evoluzione e o 3200 GT Coupé. Em 1999 a Ferrari SpA assumiu totalmente o comando da Maserati.

No Brasil

A Ferrari chegou ao Brasil no final da década de 60 pelas mãos de Piero Gancia. Ele foi pessoalmente designado e escolhido por Enzo Ferrari para cuidar da marca por aqui. Tudo ocorria normalmente até que o Brasil passou por momentos econômicos delicados, fechando as portas ao mercado externo.

Com isso, a marca do cavalinho Rampante só retomou as atividades em meados da década de 90, por meio da Via Europa, uma empresa que começou pequena e com poucos funcionários. O maior incentivo para o crescimento sempre foi o envolvimento dos seus colaboradores com a marca dos sonhos, todos impulsionados por esta misteriosa paixão e devoção religiosa à Ferrari.

Atualmente o grupo conta com quase 50 funcionários que atendem cerca de 300 clientes cadastrados - 80% deles na região Sudeste (no eixo SP - RJ) e Sul (Santa Catarina e Paraná).

Segundo números da Abeiva - Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores - existem 302 Ferrari e 125 Maserati rodando pelo País. No ano passado foram comercializados 22 modelos da marca do cavalinho e 25 da Maserati.

Oficina com padrão

mundial

Os seletos donos dessas jóias contam com a mesma assistência técnica oferecida pelo Grupo SpA no mundo. Trata-se da SAT - Serviço de Assistência Técnica Ferra e Maserati - situada na Zona Sul de São Paulo e gerenciada pela Via Europa. Para cuidar das máquinas existe um tratamento todo especial e uma padronização exclusiva. Também não é para menos, imagine só mexer em um automóvel que vale cerca de um milhão de reais. Esse é o preço de uma Modena 360 F1. Assim que chegam à oficina todos os modelos são cobertos por uma manta especial anti-choque. Assim como acontece em todas as montadoras, a Ferrari guarda diversos segredos a sete-chaves. Tudo é exclusivo: manuais, ferramentas e equipamentos. Para acertar um motor Ferrari ou Maserati é estritamente necessário obter o equipamento fornecido pela fábrica de Maranello: Se o aparelho de diagnose não for o original, é impossível trabalhar em um desses motores, conta o técnico da mecânica, Mauri de Souza, chefe da oficina.

Esse aparelho fornecido pela Magneti Marelli acusa as falhas do motor minuciosamente. As leituras obtidas podem ser consultadas por meio de manuais ou por um e-mail da Central em Maranello. Sempre que é lançado um modelo das duas marcas, a SpA seleciona um grupo de mecânicos do mundo inteiro para passar por um treinamento. Se o reparador não tiver o curso da F40, (por exemplo) ele não pode mexer em hipótese alguma no carro, explica Souza, que está há cinco anos e meio na SAT.

O intensivo ocorre uma vez por ano e envolve aulas práticas e teóricas. Ao final de cada etapa, os especialistas vão à pista para conhecer melhor o produto. É uma espécie de test-drive. A representante da Ferrari/Maserati Brasil sempre envia um técnico e um mecânico para participar dessa qualificação.

Problemas recorrentes

Um pensamento habitual é: como um motor V12 resiste as condições climáticas nacionais sem superaquecer? Segundo o chefe de oficina, superaquecimento é o que menos ocorre. O sistema de arrefecimento é preparado para resistir a qualquer tipo de ambiente. As duas marcas estão presentes tanto no Oriente Médio e na Suíça, dois extremos. Por aqui os principais problemas surgem por causa da falta de uso dos carrões. Os donos desses automóveis os guardam na garagem como uma jóia. Há casos de veículos que ficam até um ano parados. A gasolina fica velha e o óleo perde a viscosidade, conta Souza. Os modelos chegam à loja, na maioria das vezes, para a equipe fazer a limpeza no sistema de alimentação. Outros problemas recorrentes surgem na suspensão, devido ao acidentado piso nacional e à vocação para a esportividade do automóvel. Mas o mais encontrado é a incompatibilidade com o combustível. A gasolina brasileira é diferente da do resto do mundo. Tem 20 % de álcool e o chip da máquina dificilmente entende a mistura, explica o chefe de oficina. A Ferrari (assim como a Maserati) recomenda aos clientes uma revisão na parte mecânica e elétrica anual ou aos 10 mil quilômetros. Assim como nas montadoras mais tradicionais, as primeiras não custam nada ao bolso do proprietário, desde que não exista a necessidade de troca de peça.

Estrutura completa

As ferramentas são, na sua grande maioria, cedidas pela fábrica. Se o mecânico não tiver passado pelo intensivão anual ou se não existir registro do modelo relacionado por aqui, o ferramental nem vem. Cada automóvel tem um aparato exclusivo. Sem o conjunto correto é impossível mexer nos motores, uma vez que o ajuste dos parafusos é baseado em torques. Para se ter uma idéia, o torquímetro é tão complexo que mede angulação, grau e peso. Dependendo da situação, todos os números têm de ser seguidos à risca. Há na oficina uma sala onde ficam todos os manuais dos modelos Maserati e Ferrari, digitalizados. Lá, tudo está explicado didaticamente, desde uma simples reparação à retirada de um motor na inclinação correta para não haver avarias. Mesmo com uma vasta biblioteca, existe um contato on-line com a central de Maranelo que funciona 24h, para esclarecer qualquer dúvida. Além dos CDs e da assistência técnica, existem também planilhas impressas de alguns modelos. Todo o conteúdo está escrito em cinco idiomas: inglês, italiano, francês, espanhol e alemão.

Para trabalhar na SAT - Serviço de Assistência Técnica Ferrari e Maserati - é preciso ter um bom currículo. Como o ferramental utilizado é em inglês, a montadora exige de seus mecânicos fluência nessa língua.

Outro idioma exigido é o italiano. Além de ser trilíngüe é preciso obter muita técnica e experiência.

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